Associar restaurantes a outras actividades ou cidades parece ser uma orientação hodierna a que os empresários da restauração não resistem. Não sei qual foi o estudo de mercado em que se basearam (talvez o gasto mas de novo apelativo slogan “vá para fora cá dentro”), mas a ideia de Nova Iorque no Porto parece quase uma obsessão. Tendencialmente fatal.
O Tribeca mora num prédio de cinco andares. Para além de um piso dedicado à música ao vivo, tem também um espaço lounge onde se pode assistir a concertos via vídeo. A decoração é de altíssimo bom gosto, a música, easy listening, idem (jazz, soul e blues). Toda esta sofisticação aguça o palato e eleva as expectativas.
De couvert um prato de queijo, patê e umas tostas. Mau, muito mau. O prato vinha tão directamente do frigorífico que se notavam queimaduras de alguns graus em vários dos elementos. Pão, ainda que normalzinho, não há. A lista de vinhos é paupérrima, o que num bar é no mínimo estranho. Das entradas, sem grande entusiasmo dada a escassez de oferta, selecciono uma salada de pêra rocha com queijo de cabra (€ 6) e uma alheira de caça com grelos salteados (€ 5). A pêra não sabe a nada e o queijo apela a uma nova revolução industrial. A alheira é picante e é quase tudo que se pode dizer. Dos pratos principais, escolho o Tribeca NY Steak (€ 17,50) e uma açorda de marisco na sêmea (€ 18,50). Opções arriscadas mas que, de acordo com o funcionário, são “óptimas escolhas”. A carne é boa mas vem muito mal acompanhada. A salada é horrenda e despropositada (deslavada cenoura ralada, alface queimada, couve roxa murcha e cebola, tudo sem qualquer tempero – nem um coelho a morrer de fome a comia). A batata na prata, característica típica deste prato, dá pena. O queijo derretido vem duro e seco, tipo pastilha elástica. Tratar assim o prato que devia ser ícone da casa assegura o rápido fracasso. A açorda na sêmea, caminho pelo qual não se deviam ter metido, é dominada por um excessivo sabor a tomate enlatado e por marisco desenxabido. Já sem qualquer esperança provo o NY cheesecake (€ 5,50). Como docinho não é mau e até levantou a moral, mas nada tem a ver com um Cheessecake, muito menos com um cheesecake nova-iorquino.
Resta a inevitável pergunta? Porque é que um clube de Jazz, francamente bom e que tanta falta fazia à cidade, não pode ser “apenas” isso? Por outras e mais populares palavras: quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?
***
Tribeca * Rua 31 de Janeiro, 147 – Porto * Contacto: 222 014 406 * 09h30 – 19h | 20h – 23h (encerra ao Domingo) * Preço médio: 35 € * Nota: 45%
"Context and memory play powerful roles in all the truly great meals in one's life." Anthony Bourdain
16 fevereiro 2012
A máquina do tempo
Sou um piegas assumido e nem preciso que mo lembrem. Faço parte dos que sentem que nasceram no tempo e espaço errados. Por isso, fujo com frequência para locais que me transportam para onde deveria estar mas, por infortúnio do destino, não estou. Nem que seja apenas para jantar.
O Palmeira é um desses refúgios. A amabilidade com que sou recebido, a disposição das mesas, o fardamento dos empregados (que parecem saídos de um filme mudo) e a silenciosa presença de clientes que, pela idade, aparentam ter convivido com o Repórter X, oferecem todo um ambiente propício à satisfação de nostalgias. Não fossem as duas Tv’s, que nos fazem regressar a um presente assaz deprimente, e julgaríamos estar a viver em plena década de 20 do século passado.
O menu contém óptimas propostas da cozinha tradicional portuguesa. O couvert inclui uns apetitosos croquetes e rissóis acabados de fritar. A oferta de vinhos é boa mas opto por um jarrinho do da casa. De entrada não resisto a umas papas de sarrabulho (€ 2,30), muito próximas da perfeição (que até agora só havia encontrado em Ponte de Lima). Para prato principal duas provas: marmotas fritas com um arroz de tomate acabado de fazer (€ 8,50) e uns tenros e apetitosos filetes de polvo com esparregado (€ 11,50). De sobremesa a bomba calórica que se impõe para enfrentar a vaga de frio: omeleta ao rum flamejada (€ 7,50).
Um dos últimos grandes clássicos do Porto. A preservar.
Palmeira * Rua do Ateneu Comercial do Porto, 36 – Porto * Contacto: 222 055 601 * 08h – 22h (encerra ao Domingo) * Preço médio: 25 € * Nota: 77%
O Palmeira é um desses refúgios. A amabilidade com que sou recebido, a disposição das mesas, o fardamento dos empregados (que parecem saídos de um filme mudo) e a silenciosa presença de clientes que, pela idade, aparentam ter convivido com o Repórter X, oferecem todo um ambiente propício à satisfação de nostalgias. Não fossem as duas Tv’s, que nos fazem regressar a um presente assaz deprimente, e julgaríamos estar a viver em plena década de 20 do século passado.
O menu contém óptimas propostas da cozinha tradicional portuguesa. O couvert inclui uns apetitosos croquetes e rissóis acabados de fritar. A oferta de vinhos é boa mas opto por um jarrinho do da casa. De entrada não resisto a umas papas de sarrabulho (€ 2,30), muito próximas da perfeição (que até agora só havia encontrado em Ponte de Lima). Para prato principal duas provas: marmotas fritas com um arroz de tomate acabado de fazer (€ 8,50) e uns tenros e apetitosos filetes de polvo com esparregado (€ 11,50). De sobremesa a bomba calórica que se impõe para enfrentar a vaga de frio: omeleta ao rum flamejada (€ 7,50).
Um dos últimos grandes clássicos do Porto. A preservar.
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Palmeira * Rua do Ateneu Comercial do Porto, 36 – Porto * Contacto: 222 055 601 * 08h – 22h (encerra ao Domingo) * Preço médio: 25 € * Nota: 77%
09 fevereiro 2012
Regressar ao Casarão
Há alguns anos sai desta casa como quem, na minha geração, saia de casa dos pais (sim, hoje, nem com ameaças de bomba, alguém no seu perfeito juízo sai da “zona de conforto” – mais facilmente saem os pais): zangado, implicando com aquilo que não sabia apreciar, a achar que tinha o rei na barriga, iludido com vãs esperanças em novidades velhas, rogando pragas ao conservadorismo, enfim, como um pateta alegre. Felizmente, e ainda que com alguma dificuldade, vivi anos suficientes para poder perceber alguma coisa da vida. Pouco, eu sei, mas o suficiente para sublimar um erro do passado e ser perdoado e amado como se nunca daqui tivesse saído.
O Casarão é uma casa antiga mas muito bem conservada, com uma decoração clássica, um amplo salão e várias salas privadas, chão em soalho e janelas com portadas em madeira. As paredes brancas são decoradas com quadros pintados a óleo. A recepção é cavalheiresca e amistosa. E sinto no olhar de quem me recebe o pensamento: “o bom filho à casa torna”. Rapidamente se percebe que é um restaurante frequentado por grupos de amigos, daqueles que se reúnem há anos periodicamente. Tradições de gente caduca já que os verdadeiros amigos, como toda a gente sabe, estão no Facebook.
Na mesa elegantemente bem-posta esperam-me crocantes pataniscas de bacalhau quentinhas, croquetes, rissóis de marisco e uma bola de carne dos deuses. O restaurante possui uma excelente garrafeira, também de destilados (particularmente uísques). Na carta há de quase tudo. Muito marisco (destaque para uma feijoada de lagosta com camarão), uma infindável variedade de peixe fresco e pratos de carne clássicos (como o cabrito assado no forno ou o fondue bourguignone). Opto pelo peixe provando uns magníficos lombinhos de pescada com molho de marisco (dose a € 18 mas que dá para duas pessoas) e um robalo grelhado que pedi (podem-se ajustar os acompanhamentos sem espavento do chefe) que viesse com um delicioso esparregado. O peixe não só é fresco como tem aquele sabor a mar que me traz à memória noites de verão em locais longínquos, onde se podia pescar e comer o resultado da faina na praia. Ou os robalos que pescava em plena foz do Douro com o meu saudoso avô. Nas sobremesas as opções também são muitas. Escolho a simples, mas muito satisfatória, tarte de laranja (€ 3,50).
Perdoei e fui correspondido. É isto o amor.
O Casarão é uma casa antiga mas muito bem conservada, com uma decoração clássica, um amplo salão e várias salas privadas, chão em soalho e janelas com portadas em madeira. As paredes brancas são decoradas com quadros pintados a óleo. A recepção é cavalheiresca e amistosa. E sinto no olhar de quem me recebe o pensamento: “o bom filho à casa torna”. Rapidamente se percebe que é um restaurante frequentado por grupos de amigos, daqueles que se reúnem há anos periodicamente. Tradições de gente caduca já que os verdadeiros amigos, como toda a gente sabe, estão no Facebook.
Na mesa elegantemente bem-posta esperam-me crocantes pataniscas de bacalhau quentinhas, croquetes, rissóis de marisco e uma bola de carne dos deuses. O restaurante possui uma excelente garrafeira, também de destilados (particularmente uísques). Na carta há de quase tudo. Muito marisco (destaque para uma feijoada de lagosta com camarão), uma infindável variedade de peixe fresco e pratos de carne clássicos (como o cabrito assado no forno ou o fondue bourguignone). Opto pelo peixe provando uns magníficos lombinhos de pescada com molho de marisco (dose a € 18 mas que dá para duas pessoas) e um robalo grelhado que pedi (podem-se ajustar os acompanhamentos sem espavento do chefe) que viesse com um delicioso esparregado. O peixe não só é fresco como tem aquele sabor a mar que me traz à memória noites de verão em locais longínquos, onde se podia pescar e comer o resultado da faina na praia. Ou os robalos que pescava em plena foz do Douro com o meu saudoso avô. Nas sobremesas as opções também são muitas. Escolho a simples, mas muito satisfatória, tarte de laranja (€ 3,50).
Perdoei e fui correspondido. É isto o amor.
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Casarão do Castelo * Rua Santa Catarina, 74 – Leça da Palmeira (Matosinhos) * Contacto: 229 951 626 * 12h – 24h (encerra às Segundas) * Preço médio: 35 € * Nota: 81%
Ribeira negra
Há já algum tempo que andava tentado a fazer uma ronda pelos clássicos restaurantes da Ribeira. Para os portuenses, genericamente, aqueles são restaurantes turísticos, caros, com uma comida estandardizada e geralmente má, um atendimento mecânico, enfim, a evitar. Mas será que é mesmo assim? Ainda me lembro de alguns dos restaurantes da Ribeira serem motivo de orgulho. O que se passará quando os turistas cá não estão? Fui investigar.
A Mercearia caracteriza-se por uma decoração rústica, granito à vista e ilustrações da Cidade. A vista do Douro que o 1.º andar nos oferece é deslumbrante. E é pena não poder terminar aqui esta crítica. O resto foi para esquecer.
O couvert é pobre (manteiga, azeitonas, tostas e um pão escuro - € 3,50). De uma carta com muita (mas básica) oferta, opto por arriscar (maldita a hora!) umas tripas à moda do Porto (€ 13,50). A dose era abundante, mas de feijão e ainda por cima encruado. As tripas contavam-se pelos dedos de uma mão e os restantes ingredientes eram quase invisíveis. Buscando compensação emocional provo o Manjar do Príncipe (€ 4,25), um doce de ovos e amêndoa, mas que ainda me deixou mais enjoado. Tudo isto sem poder fumar.
No site do restaurante lê-se: “A caminhada para o sucesso não está em pretender resultados imediatos, mas sim na perseverança da nossa vontade em melhor servir”. Pois perseverem com mais afinco que os otários, perdão, turistas, não duram sempre.
Mercearia * Rua Cais da Ribeira, 32-33 - Porto * Contacto: 222 004 389 * 12h – 16h | 19h – 23h30 (encerra 3.ª feira) * Preço médio: 30 € * Nota: 40%
A Mercearia caracteriza-se por uma decoração rústica, granito à vista e ilustrações da Cidade. A vista do Douro que o 1.º andar nos oferece é deslumbrante. E é pena não poder terminar aqui esta crítica. O resto foi para esquecer.
O couvert é pobre (manteiga, azeitonas, tostas e um pão escuro - € 3,50). De uma carta com muita (mas básica) oferta, opto por arriscar (maldita a hora!) umas tripas à moda do Porto (€ 13,50). A dose era abundante, mas de feijão e ainda por cima encruado. As tripas contavam-se pelos dedos de uma mão e os restantes ingredientes eram quase invisíveis. Buscando compensação emocional provo o Manjar do Príncipe (€ 4,25), um doce de ovos e amêndoa, mas que ainda me deixou mais enjoado. Tudo isto sem poder fumar.
No site do restaurante lê-se: “A caminhada para o sucesso não está em pretender resultados imediatos, mas sim na perseverança da nossa vontade em melhor servir”. Pois perseverem com mais afinco que os otários, perdão, turistas, não duram sempre.
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Mercearia * Rua Cais da Ribeira, 32-33 - Porto * Contacto: 222 004 389 * 12h – 16h | 19h – 23h30 (encerra 3.ª feira) * Preço médio: 30 € * Nota: 40%
02 fevereiro 2012
A capital da Cultura (gastronómica) é aqui
Guimarães é Capital Europeia da Cultura. E eu com isso? Tudo. Sendo um profundo (dizem até notável, assombroso e reputado, exageros…) defensor da cultura gastronómica portuguesa e nortenha (garanto que isto não é o pré-anúncio de pedido de subsídios, esteja o Senhor Secretário de Estado descansado) não poderia deixar passar em branco este notável acontecimento. Na realidade um excelente pretexto para ir ao São Gião assistir sentado ao único espectáculo cultural que me faz fazer quilómetros (ou isso ou um concerto do Paco Bandeira, de preferência com pistola): comer divinamente.
O restaurante é difícil de encontrar. Mais difícil quando o Moreirense (o restaurante fica pertíssimo do seu estádio) actua agora na Liga Orangina e Moreira de Cónegos voltou a ser um local remoto.
A sala é espaçosa e espantosa com uma lareira ao centro, que aquece e agasalha os visitantes entretanto deslumbrados pela lindíssima vista dos vinhedos do vale de Moreira. A recepção e o atendimento são tranquilos, familiares, oferecendo boas sugestões e grande disponibilidade.
O São Gião é conhecido por, apesar de ter um líder criativo, não dispensar as bases da mais elementar cozinha tradicional portuguesa. Será precisamente um dos segredos do sucesso do chefe Pedro Nunes. Outro segredo é que é uma casa onde se combate a monotonia variando frequentemente a ementa.
A carta de vinhos é extensa e a ementa é tão vasta e sugestiva que nos deixa com dificuldades de escolha, seja nas entradas, nos pratos principais ou nas sobremesas. Mas é aí que as sugestões dos solícitos funcionários se demonstram preciosas.
Das entradas selecciono o presunto supremamente acompanhado com raspas de foie gras (€ 13,50) e umas deliciosas setas grelhadas (€ 5,50). Dos pratos principais ponho à prova por esta ordem: o colarinho de pescada à São Gião (€ 16,50), sem dúvida o mais bem temperado e acompanhado que comi até hoje (ajuda imenso a excelente qualidade da pescada); umas voluptuosas bochechinhas de vitela de leite confitadas (€ 16,50); e o confit de ganso (€ 15), um pouquinho seco mas igualmente delicioso. Para sobremesa opto pelo surpreendente Orizaba (€ 4,50), um semi-frio de chocolate coberto com uma fina camada de chocolate branco.
Desconheço o que se irá passar em Guimarães ao longo de 2012. Mas garanto: a capital europeia da cultura gastronómica é aqui.
São Gião * Avenida Comendador Joaquim de Almeida Freitas - Moreira de Cónegos (Guimarães) * Contacto: 222 013 560 * 12h – 15h | 19h – 23h (encerra 2.ª feira) * Preço médio: 40 € * Nota: 92%
O restaurante é difícil de encontrar. Mais difícil quando o Moreirense (o restaurante fica pertíssimo do seu estádio) actua agora na Liga Orangina e Moreira de Cónegos voltou a ser um local remoto.
A sala é espaçosa e espantosa com uma lareira ao centro, que aquece e agasalha os visitantes entretanto deslumbrados pela lindíssima vista dos vinhedos do vale de Moreira. A recepção e o atendimento são tranquilos, familiares, oferecendo boas sugestões e grande disponibilidade.
O São Gião é conhecido por, apesar de ter um líder criativo, não dispensar as bases da mais elementar cozinha tradicional portuguesa. Será precisamente um dos segredos do sucesso do chefe Pedro Nunes. Outro segredo é que é uma casa onde se combate a monotonia variando frequentemente a ementa.
A carta de vinhos é extensa e a ementa é tão vasta e sugestiva que nos deixa com dificuldades de escolha, seja nas entradas, nos pratos principais ou nas sobremesas. Mas é aí que as sugestões dos solícitos funcionários se demonstram preciosas.
Das entradas selecciono o presunto supremamente acompanhado com raspas de foie gras (€ 13,50) e umas deliciosas setas grelhadas (€ 5,50). Dos pratos principais ponho à prova por esta ordem: o colarinho de pescada à São Gião (€ 16,50), sem dúvida o mais bem temperado e acompanhado que comi até hoje (ajuda imenso a excelente qualidade da pescada); umas voluptuosas bochechinhas de vitela de leite confitadas (€ 16,50); e o confit de ganso (€ 15), um pouquinho seco mas igualmente delicioso. Para sobremesa opto pelo surpreendente Orizaba (€ 4,50), um semi-frio de chocolate coberto com uma fina camada de chocolate branco.
Desconheço o que se irá passar em Guimarães ao longo de 2012. Mas garanto: a capital europeia da cultura gastronómica é aqui.
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26 janeiro 2012
Desce redondo
Já sabem. Nada tenho contra restaurantes sofisticados e chefes delirantes. Mas, ponham-me num restaurante sem pretensões a estrelas ou distinções e onde a prioridade é boa cozinha tradicional portuguesa e, essa sim, é a minha mesa.
Atraído por um rabo de boi (não admito pensamentos lascivos), desloquei-me a uma casa onde essa é uma especialidade conhecida. Logo à chegada descubro que fui descuidado. Devia ter telefonado a perguntar se o pitéu estava disponível. É que, de acordo com a proprietária, a matéria-prima é rara e ela só a consegue adquirir de 15 em 15 dias. De monco caído, perguntei: “e agora, o que faço?”. Resposta pronta: “coma o cabrito assado no forno que não se arrepende”. E não é que era verdade?
A sala do Redondo tem uma decoração rústica com cozinha à vista. A população é maioritariamente constituída por juventude faminta e idosos que parecem sentir-se em casa. A lista de vinhos é moderada. Para aperitivo servem-me uns competentes croquetes de alheira. Depois de fumar vários cigarros, recebo o tal cabrito assado no forno (€ 14). Para além de o bicho ter acabado de assar (esperava carne ressequida do almoço), apresentou-se tenro, muito bem temperado e acompanhado por um arroz de forno a quem só faltavam os miúdos (o que lhes fizeram?). Termino com uma tarte de limão caseira (€ 2,90) que, não sendo um espanto, deu para o gasto.
Conclusão: o rabo de boi não sei como é mas o cabrito desce redondo.
Redondo da Ramada Alta * Rua Serpa Pinto, 1 - Porto * Contacto: 228 315 942 * 12h – 15h | 19h – 23h (encerra Domingo) * Preço médio: 20 € * Nota: 73%
Atraído por um rabo de boi (não admito pensamentos lascivos), desloquei-me a uma casa onde essa é uma especialidade conhecida. Logo à chegada descubro que fui descuidado. Devia ter telefonado a perguntar se o pitéu estava disponível. É que, de acordo com a proprietária, a matéria-prima é rara e ela só a consegue adquirir de 15 em 15 dias. De monco caído, perguntei: “e agora, o que faço?”. Resposta pronta: “coma o cabrito assado no forno que não se arrepende”. E não é que era verdade?
A sala do Redondo tem uma decoração rústica com cozinha à vista. A população é maioritariamente constituída por juventude faminta e idosos que parecem sentir-se em casa. A lista de vinhos é moderada. Para aperitivo servem-me uns competentes croquetes de alheira. Depois de fumar vários cigarros, recebo o tal cabrito assado no forno (€ 14). Para além de o bicho ter acabado de assar (esperava carne ressequida do almoço), apresentou-se tenro, muito bem temperado e acompanhado por um arroz de forno a quem só faltavam os miúdos (o que lhes fizeram?). Termino com uma tarte de limão caseira (€ 2,90) que, não sendo um espanto, deu para o gasto.
Conclusão: o rabo de boi não sei como é mas o cabrito desce redondo.
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Redondo da Ramada Alta * Rua Serpa Pinto, 1 - Porto * Contacto: 228 315 942 * 12h – 15h | 19h – 23h (encerra Domingo) * Preço médio: 20 € * Nota: 73%
19 janeiro 2012
Maus costumes
Estive num dos mais bonitos restaurantes do Porto e que também podia ser um dos melhores. Podia, mas não é. Qual é o problema? O de quase sempre: cuidada decoração e muita falta de jeito na cozinha.
O restaurante é pequeno mas confortável e intimista. À entrada, um bar onde se pode fumar. De uma boa garrafeira há vários vinhos a copo. A música ambiente – predominantemente jazz – é excelente.
Das entradas provei um correcto creme de castanhas (€ 5,50) e umas vieiras grelhadas em espuma de batata trufada (era puré) com ovo de codorniz assente numa fatia de presunto bolota (€ 8). Depois resolvo pôr à prova a cozinha e pedir algo que parece simples mas não é: Bife Tártaro (€ 17,50). A carne era de péssima qualidade, cheia de gordura e insuficientemente picada. As batatas fritas vinham frias. Questionados, insistiram em repetir o ensaio. Numa tentativa frustrada de me enganar resolveram passar a carne pela picadora. Ao pedido de novas explicações asseguram-me que não foi assim mas não me explicam porque é que as alcaparras vinham totalmente raladas juntamente com a carne. E amuam. Para lavar a boca peço uma espuma de requeijão com compota de abóbora (€ 5) que não chegou para compensar o desastre anterior.
Podem dizer que tive azar, mas a preços destes os deslizes não se podem perdoar. E a teimosia muito menos. Temos pena, mas sem um chefe ou uma supervisão à altura das ambições estéticas, nada feito.
Costume Bistrô * Travessa dos Congregados, 17 - Porto * Contacto: 222 015 015 * 12h – 15h | 19h30 – 23h (24h aos Sábados) - encerra Domingo * Preço médio: 30 € * Nota: 45%
O restaurante é pequeno mas confortável e intimista. À entrada, um bar onde se pode fumar. De uma boa garrafeira há vários vinhos a copo. A música ambiente – predominantemente jazz – é excelente.
Das entradas provei um correcto creme de castanhas (€ 5,50) e umas vieiras grelhadas em espuma de batata trufada (era puré) com ovo de codorniz assente numa fatia de presunto bolota (€ 8). Depois resolvo pôr à prova a cozinha e pedir algo que parece simples mas não é: Bife Tártaro (€ 17,50). A carne era de péssima qualidade, cheia de gordura e insuficientemente picada. As batatas fritas vinham frias. Questionados, insistiram em repetir o ensaio. Numa tentativa frustrada de me enganar resolveram passar a carne pela picadora. Ao pedido de novas explicações asseguram-me que não foi assim mas não me explicam porque é que as alcaparras vinham totalmente raladas juntamente com a carne. E amuam. Para lavar a boca peço uma espuma de requeijão com compota de abóbora (€ 5) que não chegou para compensar o desastre anterior.
Podem dizer que tive azar, mas a preços destes os deslizes não se podem perdoar. E a teimosia muito menos. Temos pena, mas sem um chefe ou uma supervisão à altura das ambições estéticas, nada feito.
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Costume Bistrô * Travessa dos Congregados, 17 - Porto * Contacto: 222 015 015 * 12h – 15h | 19h30 – 23h (24h aos Sábados) - encerra Domingo * Preço médio: 30 € * Nota: 45%
Leitura recomendada
A necessidade de pôr a conversa em dia com amigos próximos, com quem já não privava desde o ano passado (há duas semanas), e concertarmos o plano de actividades para 2012 (não, não se trata de sociedade secreta que eu aventais nem na cozinha e lojas só tenho subscrição na Amazon), fez-me procurar um local onde se pudesse cavaquear tranquilamente saboreando alguma coisinha boa. Associado que está este novo ano a uma épica e turbulenta viagem, nada melhor do que jantar nos Lusíadas.
Para os que já estão a imaginar mais um restaurante cheio de livros, retratos de artistas enquanto jovens idiotas e saraus de poesia ou dramaturgia camoniana, desiludam-se. A decoração está mais para oceanário (sem ninfas) do que para biblioteca, museu literário ou ilha dos amores. O nome apenas encontra justificação quando reparamos nas réplicas dos painéis de azulejos, da autoria de José Rodrigues, invocando passagens da obra de Luís de Camões.
A recepção não é exactamente esfuziante. À entrada o aquário obrigatório neste tipo de espaços e que tanto incomoda as almas sensíveis quando constatam que vida precária é a destes crustáceos sem nenhuma possibilidade de indignação ou convocação de ‘manifes’ no facebook. Ao fundo um balcão com uma montra de peixes e mariscos francamente convidativa. Acomodados numa mesa espaçosa na óptima zona para fumadores, e depois de escolher um tinto do Douro de uma extensa lista de possibilidades, inicia-se a refeição com umas agradáveis Ovas à Algarvia em molho verde (€ 4). Afastada a hipótese de partilhar uma lampreia à bordalesa (amigos da onça!), provo e aprovo o peixe-galo frito com uma deliciosa açorda de ovas (€ 15) e uns esplêndidos filetes de linguado com um arroz caldoso de amêijoas (€ 23), a quem só faltava mais tempero. Para sobremesa experimento uma Pêra borrachona (€ 4,10), aprovada, e um fabuloso bolo de mousse de chocolate (€ 4,20), aprovadíssimo.
Tratou-se, sem dúvida, de uma refeição que satisfez bastante. Mas, como dizia o poeta, foi um “contentamento descontente” já que bastava um “não querer mais que bem-querer” para a nota subir uns pontinhos. O atendimento foi um permanente anti-climax, caracterizado por um serviço sisudo e com um enorme e glacial grand-finale complicando a emissão de facturas individuais e sem sequer um “obrigado” ou “boa-noite”. Ponham estes senhores na ordem ou enviem-nos para além da Taprobana e eu voltarei com muito agrado.
Os Lusíadas * Rua Tomás Ribeiro, 257 - Matosinhos * Contacto: 229 738 242 * 12h – 15h30 | 19h – 24h (encerra Domingo) * Preço médio: 35 € * Nota: 75%
Para os que já estão a imaginar mais um restaurante cheio de livros, retratos de artistas enquanto jovens idiotas e saraus de poesia ou dramaturgia camoniana, desiludam-se. A decoração está mais para oceanário (sem ninfas) do que para biblioteca, museu literário ou ilha dos amores. O nome apenas encontra justificação quando reparamos nas réplicas dos painéis de azulejos, da autoria de José Rodrigues, invocando passagens da obra de Luís de Camões.
A recepção não é exactamente esfuziante. À entrada o aquário obrigatório neste tipo de espaços e que tanto incomoda as almas sensíveis quando constatam que vida precária é a destes crustáceos sem nenhuma possibilidade de indignação ou convocação de ‘manifes’ no facebook. Ao fundo um balcão com uma montra de peixes e mariscos francamente convidativa. Acomodados numa mesa espaçosa na óptima zona para fumadores, e depois de escolher um tinto do Douro de uma extensa lista de possibilidades, inicia-se a refeição com umas agradáveis Ovas à Algarvia em molho verde (€ 4). Afastada a hipótese de partilhar uma lampreia à bordalesa (amigos da onça!), provo e aprovo o peixe-galo frito com uma deliciosa açorda de ovas (€ 15) e uns esplêndidos filetes de linguado com um arroz caldoso de amêijoas (€ 23), a quem só faltava mais tempero. Para sobremesa experimento uma Pêra borrachona (€ 4,10), aprovada, e um fabuloso bolo de mousse de chocolate (€ 4,20), aprovadíssimo.
Tratou-se, sem dúvida, de uma refeição que satisfez bastante. Mas, como dizia o poeta, foi um “contentamento descontente” já que bastava um “não querer mais que bem-querer” para a nota subir uns pontinhos. O atendimento foi um permanente anti-climax, caracterizado por um serviço sisudo e com um enorme e glacial grand-finale complicando a emissão de facturas individuais e sem sequer um “obrigado” ou “boa-noite”. Ponham estes senhores na ordem ou enviem-nos para além da Taprobana e eu voltarei com muito agrado.
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Os Lusíadas * Rua Tomás Ribeiro, 257 - Matosinhos * Contacto: 229 738 242 * 12h – 15h30 | 19h – 24h (encerra Domingo) * Preço médio: 35 € * Nota: 75%
12 janeiro 2012
O amigo fiel
Não sei porque é que ao bacalhau chamam fiel amigo mas sei que foi um amigo muito fiel quem me deu a conhecer esta casa memorável.
Depois das habituais e repetidas doses de bacalhau natalício, e das costumeiras discussões sobre a origem e qualidade do mesmo, que incluem argumentos como “já não há bacalhau como antigamente”; “isto agora é só palmeta e vigarices do género”; “bacalhau a sério era o inglês”; “toda a gente sabe que o melhor bacalhau é do Alasca”; “bacalhau bom é o bacalhau fresco”, tinha jurado que, bacalhau, só lá para Março. De 2015. Mas a amizade é para mim um argumento muito forte pelo que resolvi quebrar a jura e visitar a catedral do bacalhau em Aveiro.
As preciosidades, como convém, não estão à mão de semear e é bom ter presente que não é fácil encontrar o Batista e que um (ou dois) GPS pode dar jeito.
A sala principal (há outra no 2.º andar para eventos especiais), remodelada recentemente, é acolhedora e, embora grande, não produz aquele insuportável efeito cantina. O serviço é rápido e muito atencioso.
A lista de vinhos não é extensa mas também não é preciso. A escolha faz-se “sem espinhas”: bebe-se o maduro branco e tinto da casa que dá exactamente por esse nome.
Para aperitivos uns óbvios bolinhos de bacalhau (€ 0,60 unidade) cuja identidade se reforça com um toque picante, e umas opíparas ovas de bacalhau (€ 3,50 a dose). De seguida, e por gratificante sugestão, provo a chora de bacalhau, uma voluptuosa sopa (a textura é quase a de uma açorda) e que originalmente era prato corrente a bordo dos bacalhoeiros. Garanto que nem o Alzheimer me impedirá de recordar semelhante pitéu para o resto da vida. Para prato principal opto pelo tradicional bacalhau assado na brasa (€ 19,00 a dose mas que dá para quatro pessoas) acompanhado por umas migas de couve branca e broa passadas pela frigideira e umas batatas assadas que antes de virem para a mesa passaram por um ligeiro banho de azeite do bom a ferver o que lhes dá um sabor único que, quase por si só, justificam uma deslocação a Aveiro. Para sobremesa um clássico da casa: natas do céu (€ 2,50) mas com ovos moles dos sérios, o que nos faz de facto ganhar asas.
Como é possível ler numa placa que indica a direcção para o restaurante, o bom bacalhau pode ser da Noruega (ou do Alasca, ou de Ermesinde), mas a tradição de o cozinhar como ninguém, essa, não há dúvidas: é do Batista.
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O Batista do Bacalhau * Rua Padre Américo, 31 – Areias do Vilar - Aveiro * Contacto: 234 341 949 * 12h – 15h | 19h – 22h (encerra 2.ª feira) * Preço médio: 20 € * Nota: 78%
Serviço público
Saber o que é ou não serviço público é questão cada vez mais fracturante. Mas de uma coisa podem estar certos: esta crítica é puro serviço público. Porquê? Querem comer barato (IVA de 2012 incluído), principalmente carne, e com uma qualidade dificilmente ultrapassável? Então, sigam-me.
A sala do Off Line é pequena mas com uma decoração muito prática. Sendo uma casa de alta rotatividade de clientes (aberta até às 2 da madrugada), o burburinho não é excessivo. Logo à primeira visita somos considerados clientes habituais e tratados com distinção. A lista de vinhos é curtinha mas dá para o gasto. Para exercitar o estômago é possível degustar umas deliciosas chamuças ou uns apetitosos rissóis e croquetes. Há mariscos mas a fantástica qualidade da carne faz deste pecado a escolha inevitável. Dos vários pratos do dia selecciono a espetada de vitela (€ 5,50). Dose generosa. Tenra, suculenta, bem temperada, acompanhada por pimento, couve branca, fatias de presunto e umas crocantes batatas fritas às rodelas. Se quiserem abrir os cordões à bolsa sugiro o soberbo bife rolha (€ 21) e garanto que não se arrependerão. Das sobremesas recomendo um simples mas idóneo pudim francês (€ 3).
Pelo serviço meritório que revela desinteresse ou abnegação em favor da comunidade sugiro, humildemente, que, por esta crítica, me seja atribuída uma ordem de mérito. Grande Oficial dos Estômagos Satisfeitos a Preços Decentes é a sugestão.
Off Line * Rua Pádua Correia, 273 – Vila Nova de Gaia * Contacto: 223 758 344 * 12h – 02h (encerra Domingo) * Preço médio: 20 € * Nota: 76%
A sala do Off Line é pequena mas com uma decoração muito prática. Sendo uma casa de alta rotatividade de clientes (aberta até às 2 da madrugada), o burburinho não é excessivo. Logo à primeira visita somos considerados clientes habituais e tratados com distinção. A lista de vinhos é curtinha mas dá para o gasto. Para exercitar o estômago é possível degustar umas deliciosas chamuças ou uns apetitosos rissóis e croquetes. Há mariscos mas a fantástica qualidade da carne faz deste pecado a escolha inevitável. Dos vários pratos do dia selecciono a espetada de vitela (€ 5,50). Dose generosa. Tenra, suculenta, bem temperada, acompanhada por pimento, couve branca, fatias de presunto e umas crocantes batatas fritas às rodelas. Se quiserem abrir os cordões à bolsa sugiro o soberbo bife rolha (€ 21) e garanto que não se arrependerão. Das sobremesas recomendo um simples mas idóneo pudim francês (€ 3).
Pelo serviço meritório que revela desinteresse ou abnegação em favor da comunidade sugiro, humildemente, que, por esta crítica, me seja atribuída uma ordem de mérito. Grande Oficial dos Estômagos Satisfeitos a Preços Decentes é a sugestão.
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Off Line * Rua Pádua Correia, 273 – Vila Nova de Gaia * Contacto: 223 758 344 * 12h – 02h (encerra Domingo) * Preço médio: 20 € * Nota: 76%
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