10 Maio 2012

Amigos em Portugal


Não vos vou dar música, embora “Friends in Portugal” (um dos meus álbuns preferidos dos Durutti Column) desse para várias crónicas. Quero falar-vos daqueles momentos difíceis em que recebemos estrangeiros e, de repente, não sabemos o que lhes mostrar ou, pior ainda, onde os levar a jantar e retribuir excelentes repastos de outras paragens.

Recebo no Porto dois dos meus melhores amigos, um italiano e um catalão. Mas, amigos, amigos, estômagos à parte. Trata-se de malta com bandulho e palato muito experimentado e exigente. Ou seja, colocavam-me claramente à prova. Restaurantes não faltam (eu que o diga!) mas, no centro histórico, comida tradicional portuguesa que não seja a típica fraude para turistas... Eis senão quando me lembro que a Adega de São Nicolau acaba de reabrir depois de uma fantástica renovação do seu espaço.

Chegámos ao final da tarde e com reserva feita. A esplanada, com uma vista formidável para o rio Douro e para o muro dos bacalhoeiros, espanta e encanta. A nova decoração da sala, que a transformou numa espécie de vagão todo revestido em madeira, é de muito bom gosto. Mas o que mais interessava saber era se a nova cara dava com a velha careta. E dá. A cozinha, afinal o que mais interessa, continua a oferecer-nos a qualidade de sempre. O atendimento, nem sempre fácil nesta casa permanentemente cheia, é competentíssimo. Excelente carta de vinhos e a preços moderados o que nos permitiu interessantes experiências.

De entrada, para além dos deliciosos bolinhos de bacalhau e croquetes, provámos a alheira frita (€ 5) e uma moira cozida (6 €) – ambas assombrosas. Para pratos principais, três maravilhas: posta de vitela arouquesa (28 € para duas pessoas), sardinha frita com arroz de feijão (€ 10,50) e os filetes de polvo com arroz do mesmo (14 €). Tudo digno de vários prémios e menções honrosas. Para sobremesa foi só continuar de boca aberta e saborear a obrigatória e felicíssima tradição da casa: jesuítas em miniatura e folhados de chila acabadinhos de fazer.

Resultado: os meus amigos, de estômagos satisfeitos e alma embevecida, desataram a fazer contas à vida e a planear as próximas visitas ao Porto (afinal aqui tão perto) e a esta magnífica e inesquecível morada que prometeram publicitar com entusiamo por essa Europa fora.

Às vezes tenho a impressão que faço mais pela economia portuguesa que o Álvaro. Mas deve ser só uma impressão.

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Adega de São Nicolau ä Rua de S. Nicolau, 1 – Porto ä Contacto: 222 008 232 ä Das 12h às 15h e das 19h às 23h (encerra Domingo) ä Preço médio: 25 ä Nota: 80% 

Abaixo os preconceitos


O programa de relaxamento clássico “jantar & filme” há muito que foi posto em causa pela total concentração das salas de cinema em espaços comerciais onde comer é sinónimo de encher. Mas, procurando com jeitinho, há excepções. E das boas.

O nome engana já que nos induz a pensar que iremos enfrentar rodízios ou comida ao quilo. Nada disso. Ainda que o serviço seja bastante rápido (sobretudo nos pratos pré-confeccionados e mais em conta) estamos num restaurante com todas as letras. A recepção e o atendimento são gentilíssimos. À entrada um piano dá o tom do que iremos encontrar: a sala é um autêntico antiquário.

Dominada por enorme lustre, expõe nas paredes atraentes velharias. As mesas, confortáveis, assentam em velhas máquinas de costura. Pena a ausência de guardanapos de pano, toalhas nas mesas e uma lista de vinhos pouco variada.

De entrada, para além dos triviais pão torrado com manteiga de alho e tostas e um paté de atum, provo um delicado presunto ibérico (€ 5,30). Dos pratos principais experimento o suculento e muito bem temperado tornedó com gambas, batata frita e legumes (€ 12) e o bacalhau à Braga, frito com cebolada, crocante, nada salgado, acompanhado com batata frita às rodelas estaladiças (€ 12). À laia de digestivo, saboreio uma competente tarte de limão (€ 2,85).

E desta Praça da Alimentação proclamo: abaixo os preconceitos contra os centros comerciais! Todos ao Bodegão!

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Bodegão ä Av.ª Óscar Lopes – CC Mar Shopping – Loja 1051 – Leça da Palmeira ä Contacto: 936 549 443 ä Das 12h às 23h (não encerra) ä Preço médio: 20 ä Nota: 75% 

03 Maio 2012

Ainda


“Ainda” é o advérbio de tempo de que mais gosto. É como se fosse um motor. Significa a possibilidade de nem tudo estar perdido, de continuidade, de redenção e salvação. Digamos que é por “ainda” acreditarmos que vale a pena qualquer coisa que continuamos a bulir. Quando o “ainda” desaparece das nossas vidas, normalmente já (outro advérbio de tempo, desta feita detestável) estamos mortos.

Vem tudo isto a propósito de me ter lembrado de saber se o D. Tonho ainda é o que era. O que não falta nas nossas praças são restaurantes que depois da justificadíssima fama se deitam na cama (na maior parte das vezes sem ver com quem...). Ouvidas diversas opiniões, nem sempre concordantes, resolvi investigar por conta própria (e da Tentações, claro).

O D. Tonho além de não ter perdido nenhuma das suas múltiplas qualidades faz aquilo que é mais difícil: manter-se aberto desde 1992, fiel aos seus princípios, resistindo a modas, fusões, transfusões e moléculas, continuando a fazer muito bem aquilo que afinal mais interessa: servir boa comida, num espaço privilegiado e recebendo com carinho quem o visita.

A decoração deste antigo armazém de bacalhau é dominada pelo granito e por uma excelente iluminação. O serviço é muito competente, nada intrusivo mas bom conselheiro quando solicitado.

A oferta de entradas é estonteante e apetece provar de tudo. Chamado à razão pelos funcionários, acabo por selecionar “apenas” estas que vivamente recomendo: um bocadinho de queijo de Nisa (€ 8,75), coelho de S. Cristovão, sequinho com um molho de coentrada delicioso (€ 7,60), o obrigatório polvo em molho verde, umas fatias de presunto serrano e uns apetitosos e fresquíssimos camarões. Para prato principal, sujeito-me a duas provas: bacalhau à moda de Júlio de Gouveia (€ 20,15), um prato que transforma o fiel amigo num pitéu surpreendentemente delicado, acompanhado de batata a murro e couve-flor e o cabritinho no churrasco à moda do Amaral de Vila Nova (€ 21,75), crocante, com batatas fritas aos quadrados, a pedir um prémio. Para sobremesa, tentadoras opções. Contrariado, mas respeitando o estômago que pedia clemência, fico-me pela mousse de maçã (€ 5,25), um fino amaciador do palato.

Um personagem do romance de Miguel Unamuno, Abel Sanchez, garantia: “ninguém elogia com boas intenções”. Pois as minhas são as melhores: a de que o ainda seja sempre.

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D. Tonho ä Cais da Ribeira, 13-15 – Porto ä Contacto: 222 004 307 ä 12h às 15h e das 19h às 23h  (não encerra) ä Preço médio: 40 ä Nota: 89% 

Tapa mas não cobre


Visitar a rua dos Mártires da Liberdade, e conhecer o importantíssimo significado histórico desta expressão, devia ser, actualmente, uma obrigação. Mas como é de restaurantes que tenho que falar, paciência. E no presente caso, é preciso alguma.

Situado na baixa do Porto, o Noa é um restaurante de tapas e bar. O acesso não é fácil já que a porta está fechada e ao toque da campainha não respondem propriamente com celeridade. Vermelho, dourado e branco são as cores principais de um universo que querem afirmar como “feminino”. Uma montra, logo à entrada, transformou-se num espaço simpático que poderia ser para fumadores mas, infelizmente, não é. A música ambiente é desadequada e perturba.

Na mesa encontro azeitonas, paté de atum, pão e tostas. A carta de vinhos é curta, mazinha e, pior, cara. No menu para além de Sushi e outras poucas coisas oferecem 18 qualidades de tapas. Escolho as Gambas Thai fritas com molho agridoce, enjoativas porque híper-gordurosas (€ 5,50), as batatas bravas (às rodelas com molho agridoce picante – uma decepção já que nada têm nada a ver com as espanholas - € 3.50) e um vulgar queijo camembert panado com doce de chila, de abóbora e pimenta vermelha (€ 5,50). As tapas, que se querem rápidas, demoram imenso. Para sobremesa as opções são tão curtas e pouco atractivas que prefiro decliná-las.

Em síntese: os nossos santos não se cruzaram.

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Noa ä Rua Mártires da Liberdade, 108 / 112 – Porto ä Contacto: 919 181 545 ä 12h-15h e 19h-24h (2.ª a 4.ª) e 19h30-02h00 (5.ª a Sáb. - encerra Domingo) ä Preço médio: 20 ä Nota: 55% 

29 Abril 2012

Sócio devoto


Clubes de Luxúria, Avareza, Ira, Preguiça, Inveja e Vaidade (e alguns onde todas estas “actividades” se conjugam na perfeição), quem não os conhece? Já um clube onde se franqueia a porta para opíparas e gulosas experiências estava em falta.

Instalado num antigo solar do Sex. XIX, no coração da zona das galerias de arte e afins (traseiras do Centro Comercial Bombarda), está dividido em três áreas. No rés-do-chão existe uma bem recheada loja gourmet. No primeiro andar encontramos duas salas, uma moderninha e outra mais clássica (bastante mais bonita, estilo vintage, com um jardim de inverno.) Na decoração predominam o castanho e o dourado. A iluminação é fraquinha (os candeeiros Ikea não ajudam) e a música ambiente podia ser melhor. O atendimento é competente mas mais empatia seria bem-vinda.

O menu é vasto: entradas frias e quentes, saladas, pratos do mar e da terra, e até vegetarianos. Por encomenda, e para um mínimo de 8 a 10 pessoas, podemos inclusivamente saborear alguns dos mais tradicionais manjares da cozinha portuguesa: arroz de cabidela, cabrito assado no forno, cozido à portuguesa e tripas à moda do Porto.
A lista de vinhos não espanta e a oferta de meias garrafas é reduzidíssima. Mas, para compensar, há vinho a copo. Na mesa encontro um cesto com pão, azeitonas e o omnipresente azeite com vinagre balsâmico! Chega de semelhante tortura! O que é feito da manteiga?

Das entradas selecciono os mexilhões panados com puré crocante de queijo de cabra (€ 7,50). Embora pequeninos, os bichos apresentam-se delicados, secos e muito saborosos, combinando na perfeição com o queijo de cabra. Isto, sim, é a inovação que interessa. Para prato principal, e apesar de prometedoras ofertas, não resisto e peço o afamado bife do lombo com queijo da serra amanteigado, croquete de batata e amêndoa, salteado de legumes ao alho (€ 20,50). Iguaria imperdível. O croquete é feito de batata no forno entremeada com enchidos e amêndoa. A carne é de altíssima qualidade e o sabor, realçado pela fina camada de queijo da serra que se mantem amanteigado enquanto comemos, deixa-nos em sentido.

Para sobremesa, papos de anjo com queijo da serra amanteigado e frutos secos (€ 6,50). Puro deleite! Uma das melhores sobremesas que comi em toda a minha gula.

Desconheço o valor da quota deste Clube, mas já pedi o cartão de membro. Como diria o génio: sócios, de que é que estão à espera?

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Clube da Gula ä Rua Prof. Jaime Rios de Sousa, 19 – Porto ä Contacto: 220 934 229 ä Seg-Qui. 12h30-15h30 | 19h30–23h – Sábados 24h. (encerra Domingo) ä Preço médio: 30 ä Nota: 80% 

Estômago em órbita


Este Cometa, nascido em 2006, continua a ser privilégio de poucos. De difícil acesso (desde a Alfândega temos que subir os incontáveis degraus das Escadas do Caminho Novo), é mais conhecido no estrangeiro do que em Portugal. Habitando uma antiga taberna, ao transpormos uma cortina de veludo, ingressamos num original e acolhedor ambiente. Predomina o azul e uma decoração com espelhos, bonecas, loiça antiga e mesas postas com requinte. Com uma música ambiente muito apropriada, é um restaurante de fumadores e para fumadores.

A lista de vinhos permite uma boa escolha, também a copo. O serviço, vestido a rigor, é simpático, embora um tanto ou quanto atarantado, sobretudo com casa cheia.

Entretêm-me com pão, azeitonas e manteiga (nada de azeite, valha-os Deus!). Das entradas, escolho os Piroguis (especialidade da casa - € 4,50), uma espécie de delicados crepes de massa fresca com recheio – requeijão e menta, couve e cogumelos e sardinhas e pinhões. Dos pratos principais, duas provas de eleição: caril goês de peito de pato com puré de maçã, abacaxi grelhado, arroz branco e pão indiano (€ 15,50) e o bife tártaro com salada de alface regada com vinagre balsâmico e chips finas estaladiças (€ 14,50). Nas sobremesas opto pelo sofrível leite-creme queimado com gengibre (€ 3,50).

Os cometas são classificados como periódicos, não-periódicos e extintos. Neste caso, estamos perante um Cometa que deve ser visitado periodicamente.

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O Cometa ä Rua Tomás Gonzaga, 87 – Porto ä Contacto: 222 008 774 ä Das 20h às 0h30 (encerra Domingo) ä Preço médio: 25 ä Nota: 78%

12 Abril 2012

Os magiares estão no Porto

Da Hungria, na década de 90, guardo óptimas recordações, mas nem todas publicáveis em revistas de família. Digamos que subscrevo a ideia de que, se Paris é amor, Budapest é sexo. E mais não digo sem a presença de, pelo menos, três escritórios de advogados.

A cozinha internacional no Porto tende a ser minimal repetitiva e, geralmente, fraquinha. A chegada da Hungria é assim uma excelente notícia, sobretudo porque, no presente caso, se trata de um magnífico restaurante.

Sou recebido com uma simpatia invulgar. No rés-do-chão desta casa (que em tempos foi abrigo do famoso Restaurante Transmontano) existe um Bar que também serve alguns petiscos. A sala principal, situada no 1.º andar, é francamente bonita. Predomina a utilização de vários tipos de madeiras, a exposição de diversas fotografias antigas e uma excelente distribuição de luz.

De imediato me são servidas as indispensáveis bogachas (pão aromatizado) e deliciosos patés de beringela e queijo. A lista é vinhos é forte, com muita oferta de líquidos húngaros. Por sugestão do gentilíssimo funcionário, opto pelo vinho da casa (branco e tinto) que é importado pelo proprietário a um seu compadre húngaro. Abençoados laços familiares que nos permitem experimentar tão extasiantes sabores.

Para entrada, duas pérolas: queijo grelhado com maçãs estufadas em vinho (€ 4,50) e um fígado de vitela grelhado com cogumelhos salteados (€ 3,80). Dos pratos principais, duas provas: carré de veado com mirtilos e croquetes de batata (€ 16) e ragu de javali à Gemenc (€ 12,50). Os mirtilos do carré (quase em compota) chegam-me servidos dentro de um kiwi descascado em forma de cálice. Os croquetes de batata (que acompanham ambos os pratos), suaves, delicados, sem pinta de gordura, são um exemplo de como se pode preparar este carbohidrato de forma criativa e deliciosa. O ragu (um guisado) de javali é uma preciosidade para o qual só encontro rival numa certa casa em Bragança. Termino com uma opção pelos opiáceos: parfait de papoila (€ 3,50), uma sobremesa gelada de opípara degustação e sem efeitos secundários. Esses viriam com o obrigatório vinho Tokay, de altíssima qualidade (5 Puttonyos, ou seja, com um nível elevado de açúcar que o tornam mais raro e refinado).

Em síntese: para copiar doutoramentos os húngaros não demonstram grande habilidade; já na cozinha, são de uma originalidade invejável.

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Zsa Zsa * Rua de Santo Ildefonso, 118-120 – Porto * Contacto: 225 194 370 * De 3.ª a sábado das 17h à 1h e ao domingo das 12h às 17h (encerra 2.ª feira) * Preço médio: 30 € * Nota: 89%

Multiusos

Deve ser um dos mais polémicos edifícios portugueses. Não tendo aqui espaço para fundamentar opiniões, apenas vos digo: eu gosto. E agora, que sei que lá posso comer divinamente, ainda gosto mais. Situada no 7.º andar, a sala, dividida em duas áreas distintas (bar e restaurante), conjuga o betão com uma atraente mistura cromática.

O atendimento é eficiente, mas tão mecânico e frio que parece que estamos a ser servidos por autómatos comandados à distância por um déspota que, a qualquer falha, os condena à morte. É pena, porque quase pôs em risco uma refeição que no resto se demonstrou perfeita.

Boa lista de vinhos e com excelentes opções a copo. Embora esteja disponível um interessante menu para o almoço (14€ com tudo incluído), opto por experimentar a carta.

Como prelúdio selecciono a salada de camarão e frutas tropicais, rabanetes e molho exótico (€ 6,70). O tempero é perfeito, o que conjugado com a generosa dimensão e frescura dos camarões se demonstrou uma óptima escolha. Para interlúdio aposto tudo no risoto de uvas e farinheira com foie gras (€ 14). Sinceramente, não imaginava que pudesse ser tão bom. Tudo no ponto numa perfeita profusão de sabores. O poslúdio, razoável mas não espantoso, foi um toucinho-do-céu sobre carpaccio de abacaxi e polpa de maracujá (€ 5,20).

Esta casa é, definitivamente, o tipo de “multiusos” que me interessa.

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Casa da Música * Avenida da Boavista, 604-610 – Porto * Contacto: 220 115 912 * Segunda a Quarta 12h30-15h /19h30-23h e Quinta a Sábado: 12h30-15h/19h30-24h (encerra Domingo) * Preço médio: 30 € * Nota: 85%

04 Abril 2012

Os vendedores de emoções

Encontrando-me na Guarda, por razões que não vêm ao caso, e que vos maçariam de morte conhecer em detalhe (ao contrário do que os leitores possam pensar, a minha vida profissional não é isto), procurei, como sempre procuro fazer, encontrar um poiso para consolar o ditador estômago. Como habitualmente, de nada adianta perguntar aos autóctones onde se come bem porque, invariavelmente, nos indicam direcções totalmente opostas e ponderando regras altamente subjectivas. Optei por seguir critérios cientificamente muito mais objectivos e entrar no primeiro restaurante que encontrei.

O Belo Horizonte está instalado numa bonita e muito bem conservada casa em plena zona histórica da cidade. A sala, de pedra granítica à vista, não é grande mas é acolhedora. A recepção e atendimento são muito cordiais e o “mordomo”, que dá pelo nome de António José, (filho dos proprietários que ainda se encontram ao serviço numa demonstração de envelhecimento activo formidável) é de uma gentileza e simpatia que nos faz imediatamente sentir em casa.

A oferta de vinhos é imensa, mas o mais relevante é que, pela primeira vez na vida, fui convidado a visitar a garrafeira e, tal como se estivesse numa livraria, a escolher o vinho de acordo com a região e ano. Mais, depois de escolher, não tive que ficar com a garrafa que estava na prateleira. Foi-me entregue outro exemplar que se encontrava conservado à temperatura ideal. “Somos a alma desta casa”, diz-me o António a certa altura. E que alma! A mãe é quem nos serve. Olhar materno, enternecedor e satisfeito por ver que o que nos oferece agrada. Coisa cada vez mais rara. E que não tem preço. Aqui não se vende comida, vendem-se emoções.

O que se come? Cozinha típica regional portuguesa e da Beira Interior. Inicio o magnífico repasto com um queijo fresco tradicional que combina na perfeição com o pão local. De entrada, aceito provar uma iguaria: carapaus fritos em molho de escabeche (€ 1,75). Para prato principal, seguindo o conselho do António, opto pela chouriçada regional (€ 9,48). Os enchidos (farinheira, chouriça e morcela) são de excepcional qualidade e em dose imensamente generosa. Para sobremesa provo - e aprovo - o doce da casa (pudim, bolacha molhada em café e natas - € 2,45) e não resisto a um clássico: queijo da vizinha Serra da Estrela. Coisa fina.

Eles afirmam: quem servimos, fala por nós. E não é que fala mesmo?

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Belo Horizonte * Largo de S. Vicente, n.º 1 e 2 - Guarda * Contacto: 271 211 454 * 10h às 22h (encerra aos Domingo à noite e 2.ª feira) * Preço médio: 20 € * Nota: 78%

What a wonderful world

Quem conhece o drama de ter fome fora de horas, sabe do que falo. A oferta de restaurantes no Porto onde se possa comer depois das 22 horas é pequena e, geralmente, repetitiva nas fórmulas.

Para quem sofra desta enfermidade, o Wilson é um oásis.

A decoração, simples e funcional, é marcada pelas fotografias a preto e branco de sorridentes estrelas da música, cinema e política mundial. Entre Marylin Monroe, Louis Armstrong ou Kennedy, estão Amália Rodrigues, António Silva e Vasco Santana. A mensagem que o Wilson quer transmitir é simples: todos sorrimos no mesmo idioma.

O serviço é muito simpático, eficiente e com banda sonora cubana. A lista de vinhos é modesta mas dá perfeitamente para o gasto. A cozinha é essencialmente portuguesa e na carta não faltam os rojões e as tripas, polvo à lagareiro, arroz de tamboril, bacalhau na brasa, arroz de pato ou a especialidade da casa, bife em massa folhada. Para outros gostos, risottos, massas e saladas. Mas a oferta mais procurada são as cerca de 30 tapas. Selecciono as gambas salteadas em azeite e alho (€ 6), as tripas enfarinhadas (€ 3), as pataniscas de bacalhau (€ 4,50) e a morcela com doce de abobora e requeijão (€ 5). Devo dizer que todas me surpreenderam e agradaram imenso, mas a morcela, que quase pode servir como sobremesa, é digna de altíssimo respeito.

À saída olho uma última vez para o Louis Armstrong and I think to myself...

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W do Wilson * Rua Conde de Vizela, 74 - Porto * Contacto: 220 963 373 * 19h às 02h (encerra Domingo) * Preço médio: 18 € * Nota: 75%